"What We Eat" é uma autópsia visual do nosso consumo. Ao apresentar a matéria orgânica no seu estado mais primordial — crua, visceral e desprovida da "civilidade" do cozinhado — este projeto remove o véu do hábito que obscurece a nossa relação com o que ingerimos. O que servimos no prato é um fragmento de um ser; um lembrete físico de que o consumo de proteína animal é, na sua essência, a apropriação de uma vida. Ao isolar estes elementos, exponho a anatomia que a cozinha habitualmente esconde, forçando o observador a confrontar a textura, o brilho da carne e a presença inegável da morte.
A inclusão da batata crua, neste cenário, surge como uma crítica à nossa perceção mecânica da natureza. Ao colocá-la lado a lado com a carne, sublinho a forma como a modernidade nivelou a nossa consciência: passámos a encarar tanto o animal como o vegetal como mercadorias indistinguíveis, meros objetos inertes sobre o prato. Embora a carne implique a interrupção de um ciclo biológico e a batata a extração da terra, o nosso consumo tornou-os idênticos na sua irrelevância ética. Esta igualdade forçada é o reflexo do nosso distanciamento: despimos ambos da sua origem e singularidade para que possam ser consumidos sem o peso da sua existência real. É um exercício de desconforto que nos obriga a perguntar: até onde precisamos de mascarar a realidade biológica daquilo que comemos para nos sentirmos, ainda, seres humanos civilizados?

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